Sim
Por:
“Um número substancial de médicos cuja conduta foi investigada pelos reguladores apresentou alguma evidência de problemas de desempenho ou de comportamento no curso de Medicina”
O Conselho Médico Geral (CMG) regula a Medicina no Reino Unido. Como parte dessa responsabilidade, tem por aspiração instilar uma noção clara de dever profissional em nossos alunos e o faz tanto redigindo orientações para todas as escolas de Medicina quanto certificando-se de que sejam seguidas como parte de seu processo de garantia de qualidade.1 Tudo isso é certamente útil; porém, em nossa opinião, não é o suficiente.
Todas as escolas de Medicina do Reino Unido adotam hoje procedimentos de preparo para a prática médica baseados naqueles utilizados para médicos já registrados.2 Com isso, tentam estimular um forte senso de comprometimento profissional e lidar com os alunos que se desviam. No entanto, a interpretação varia entre as escolas. A University College London recentemente realizou uma série de reuniões informais entre as cinco escolas de Medicina de Londres para comparar sua abordagem em relação a questões sobre a adequação para a prática da Medicina. As reuniões demonstraram diferenças gritantes na forma como lidaram com problemas semelhantes referentes a alunos. Houve variações tanto nos limiares para encaminhamento quanto nos desfechos dos casos.
O CMG admite haver problemas de consistência e está trabalhando juntamente com as escolas de Medicina para melhorar a questão através de encontros regulares. Mais uma vez, em nossa opinião, isso não será suficiente; as variações que encontramos em Londres têm persistido a despeito da presença de representantes das diferentes escolas em painéis sobre preparo para a prática médica. A regulamentação central é a única maneira de se conseguir consistência e justiça nas abordagens.
Status
A compreensão dos alunos sobre seu status profissional e sobre a importância da ética para a prática da Medicina seria fortalecida pelo registro no CMG, o que apoiaria o esforço por parte das escolas em promover valores e responsabilidades profissionais durante o curso e tornaria os alunos mais conscientes das regras que precisarão seguir após a graduação. Apesar de o CMG ter sido bem-sucedido no aumento da conscientização de seu papel por parte dos alunos, há um erro de concepção comum entre eles: o de que estão aprendendo um código de comportamento que só se aplicará após a formatura.
A despeito do esforço das escolas, os alunos continuam sem saber o que constitui um problema de preparo para a prática médica, e os boatos correm soltos. Um exemplo – possivelmente apócrifo, porém não menos revelador – é o fato de um aluno de Medicina achar que manter o quarto desarrumado em seu alojamento possa resultar em encaminhamento para uma sindicância ou processo de preparo para a prática médica. No outro extremo, também há aqueles que pensam que fazer uso de drogas recreativas à noite e nos finais de semana não deveria interferir em sua conduta durante o curso.
Intervenção precoce
Janet Smith, após pesquisar sobre autorregulação profissional no Shipman Inquiry,3 sugeriu que o registro de alunos fosse considerado no Reino Unido (como isso não fez parte de sua investigação, não foi objeto de uma recomendação). Outras profissões da área da saúde não registram seus alunos, mas isso tem sido permitido aos solicitantes.4 A principal preocupação é evitar que alunos potencialmente perigosos tornem-se médicos perigosos. Pesquisas recentes – ainda que com números pequenos – demonstraram que um número substancial de médicos cuja conduta foi investigada pelos reguladores apresentou alguma evidência de problema de desempenho ou de comportamento no curso de Medicina.5,6
No momento, é difícil rastrear alunos com problemas no Reino Unido devido à falta de dados longitudinais. Um registro do CMG que mantivesse detalhes de alunos da graduação durante todo o seu treinamento até a carreira médica seria uma fonte valiosa de evidências para fortalecer a confiança do público nos médicos. Também seria possível usar as informações coletadas para determinar os tipos de problemas que, se não resolvidos, podem resultar em encaminhamento para processos de preparo para a prática médica no futuro. Tal medida traria uma grande contribuição para a abordagem do ensino e do aprendizado de profissionalismo na educação médica de graduação e pós-graduação.
Por fim, o registro central e o maior e concomitante envolvimento do CMG com questões de preparo para a prática médica poria fim à rodada anual de incertezas para alunos que foram sujeitos a investigações dessa natureza. Atualmente, não sabemos se o CMG aceitará as investigações e os desfechos das escolas de Medicina, ou se desejará realizar suas próprias investigações e audiências. Como ele não avalia os documentos de preparo para a prática médica das escolas antes do momento do registro provisório, alguns alunos ficam imaginando se poderão ou não dar início a seus primeiros anos de residência.
Pode haver algumas considerações práticas, como custo e tempo para se desenvolver e administrar um registro de alunos; porém, este é um preço pequeno a se pagar para melhor proteger o público e manter o status e a confiança da profissão.
Interesses conflitantes
JD é membro do CMG
Procedência
Artigo solicitado
Não
Por:
“Há um universo de diferenças entre o adolescente que só tem o vestibular e está longe de casa pela primeira vez, desenvolvendo suas habilidades, e o neurocirurgião de cinquenta e poucos anos que lidera um serviço médico considerado modelo em todo o mundo”
Janet Smith sugeriu a ideia de um registro de alunos no Shipman Inquiry.1 Essa ideia não estava estritamente nos limites do inquérito, e, mesmo que estivesse, não teria feito nada para impedir o assassino serial Harold Shipman; contudo, foi levantada mesmo assim.
As recomendações subsequentes do Ministro da Saúde sobre regulamentação médica no Good Doctors, Safer Patients deram continuidade a tal ideia. A recomendação 23 afirmava o seguinte: “Alunos de Medicina devem receber um ‘registro do aluno’ no CMG, e as escolas de Medicina devem ter entre seus funcionários um afiliado do CMG que opere os sistemas de fiscalização de preparo para a prática médica em paralelo com os sistemas já existentes para os médicos registrados”.2
Necessidade
Com apoio tão eminente para a regulamentação de alunos, seria de se esperar que o problema fosse grave. Assim, é surpreendente que uma pesquisa realizada com chefes de departamento da pós-graduação tenha observado que, dos 5.833 médicos no primeiro ano de clínica em 2005, apenas 16 recém-formados do Reino Unido estivessem sendo “motivo de preocupação”.3
O registro de alunos no CMG não é apenas uma ação desproporcional; é a duplicação do trabalho, já que cada curso de Medicina do Reino Unido deve ter seus próprios procedimentos de fiscalização de preparo para a prática médica, independentemente de qualquer outra medida universitária mais generalizada.
Consistência
O principal argumento contra o atual sistema é a inconsistência entre diferentes escolas. Se dois alunos defrontam-se com desfechos diferentes para o mesmo delito por motivos pouco além da simples distância geográfica, temos claramente um problema. Assim, em 2009, o CMG introduziu novas diretrizes sobre o comportamento profissional e o preparo para a prática médica dos alunos de Medicina em todo o Reino Unido,4 adotanto uma conduta sensata e bem-vinda.
No entanto, sugerir que a presença de um membro do CMG em cada curso de Medicina ou registro central aumentaria de alguma maneira a uniformidade parece uma afirmação sem fundamento. As escolas de Medicina já contam com funcionários que supervisionam a conduta dos alunos e agora dispõem de uma diretriz nacional. Acrescentar um afiliado do CMG em cada escola seria, na melhor das hipóteses, acrescentar mais burocracia; na pior das hipóteses, esmaeceria a linha que delimita quem é responsável pelos alunos. Tal ambiguidade não seria um serviço nem para os alunos nem para seus futuros pacientes.
Julgamento
O registro no CMG também deixaria o julgamento para um regulador distante, minando o senso comum dos que estão mais bem-posicionados e que conhecem melhor o aluno e a situação. A diretriz sobre o comportamento profissional e o preparo para a prática médica dos alunos, por exemplo, inclui em suas categorias o não comprometimento com o trabalho, a negligência em tarefas administrativas, o manejo precário do tempo e o não comparecimento às atividades de trabalho.4
Essa poderia ser uma descrição perfeita de metade dos alunos em minha universidade. Faz sentido arrastar esses adolescentes para uma longa e cara audiência oficial sobre conduta de preparo para a prática médica para decidir se têm potencial para se tornar maus médicos ou se são alunos normais, quando cada um já tem um supervisor individual que é responsável por analisar seu comportamento? Isso é fazer bom uso do dinheiro público?
Custos
O custo potencial é um importante fator a ser considerado. Antes que um único aluno tenha errado ou que uma única audiência de preparo para a prática médica tenha sido realizada, o Initial Regulatory Impact Assessment fornecido com o Good Doctors, Safer Patients sugere que o modelo para registro de alunos proposto pelo Ministro da Saúde custaria em torno de £1 milhão (US$1,5 milhão) ao ano,5 o que corresponderia a aproximadamente £30 por aluno.
Há melhores maneiras de se utilizar esse dinheiro. Um argumento a favor do registro de alunos é instilar uma cultura de profissionalismo, responsabilidade e envolvimento com os padrões do CMG. Com base em uma estimativa de custo de £5.000 do CMG para um de seus eventos em um curso de Medicina,3 seria possível realizar dois desses eventos por semestre em todas as escolas de Medicina do país e, ainda assim, gastar £160.000 a menos que o valor necessário para simplesmente apor o nome de todos os alunos em um registro – e teria um efeito muito maior sobre o envolvimento.
O papel dos médicos
Deixando de lado aspectos como custos, responsabilidade e consistência, o ponto crucial é bem mais simples: os alunos não são e não devem ser responsabilidade do CMG. Se vou ao médico para me submeter a uma neurocirurgia ou para levar meu filho que está resfriado, quero saber que o médico que consulto está entre os mais bem-treinados e trabalha sob a melhor regulamentação do mundo. O que eu não quero é consultar um aluno.
O lema do CMG é “Regulamentação de médicos, garantia de boa prática”. Um aluno não deveria praticar, nem fazer as vezes de médico. Teria de haver uma ameaça muito grave à segurança dos pacientes para justificar qualquer esmaecimento na linha divisória entre um aluno e um médico – e 16 “motivos de preocupação” entre 5.833 médicos em seu primeiro ano de carreira não indica qualquer ameaça dessa magnitude.
Há um universo de diferenças entre o adolescente que só tem o vestibular e está longe de casa pela primeira vez, desenvolvendo suas habilidades, e o neurocirurgião de cinquenta e poucos anos que lidera um serviço médico considerado modelo em todo o mundo. Acreditar que nós, como pacientes, e eles, como médicos, somos mais bem-servidos pelo mesmo tipo de regulamentação é um absurdo.
Os alunos já são regulamentados. Se a diretriz nacional e os procedimentos locais estão falhando, devem então ser melhorados, mas esse não é um argumento para envolver a complexa estrutura do CMG.
Interesses conflitantes
Nenhum declarado
Procedência
Artigo solicitado